↰ voltar ao início

tmergulhao/blog


A obra de Mondrian

“Mondrian’s absolutist aesthetic of abstraction”

1902-03, Piet Mondrian, Truncated view of the broekzijder mill on the gein wings facing west

1902-03, Piet Mondrian, Truncated view of the broekzijder mill on the gein wings facing west

Ao falar de De Stijl e dos movimentos artísticos do fim do século XVIII e XIX trabalhamos com todo espectro de desenvolvimento humano. Como na Renascença, o avanço artístico esteve amplamente ligado ao avanço da religião, filosofia e ciência. O limiar do que era realizado na arte estava destro das possibilidades técnicas que a sociedade dispunha bem como seu avanço ideológico. Neste texto a saga de libertação da natureza e do realismo até o abstrato pode ser observado pelo caminho de um artista. As escolhas e dúvidas que Mondrian tinha naquela época talvez sejam reflexo do avanço da sociedade na perspectiva de um ator de vanguarda, exemplificando as questões que lideraram a comunidade artística.

Nascido, em 1872 nos Países Baixos, Pieter Cornelis Mondriaan fez sua formação primária na Escola Primária Calvinista, onde seu pai trabalhava como diretor. Como nesta época, e até hoje de certa forma, o ensino era ligado aos paradigmas da época, à religião e ao culto à cultura clássica. Foi somente na sua adolescência foi instigado à produção artística por meio de ensinamentos de seu pai e de um tio que era pintor profissional.

1910, Piet Mondrian, Amaryllis

1910, Piet Mondrian, Amaryllis

Ao completar 20 anos Mondriaan, devido à sua proficiência técnica, conseguiu o modesto posto de professor de artes primário, em 1892. E nesta mesma época que o artista ingressou na Academia de Arte de Amsterdam, onde passou os próximos 4 anos completando sua educação artística. Formalmente influenciados pela academia, os estudantes e artistas da época tinham contato fortíssimo com o Naturalismo, Impressionismo e o Art Nouveau — que se encontrava no topo da moda. Mesmo depois de sua formação, em 1896, Mondrian ainda estaria preso por mais de 10 anos à pinturas florais e a paisagens, não sendo modelo para o sucesso e nem se voltando à abstração.

Seu marco artístico só floresceu quando Mondrian buscou o desenvolvimento psicológico e filosófico. A libertação do mundo material começou em sua mente ao lado da escola filosófica sincrética da Teosofia. A Teosofia pertence a uma árvore filosófica que data desde a idade das trevas como termo, estabelecendo-se como culto unificado pouco antes do nascimento de Mondrian. Pregava igualdade entre indivíduos perante seu sexo, cor, casta, crença e raça; o estudo alinhado entre ciência, filosofia e religião; e a explicação das leis da natureza e os dons do homem. Esta instituição, fundada em 1875 na cidade de Nova York, atraia filósofos, falsários e charlatães em equiparáveis proporções dentre os quais estava Helena Petrovna Blavatsky, russo-alemã rica, aventureira e famosa pelo credo.

1912, Piet Mondrian, Gray Tree

1912, Piet Mondrian, Gray Tree

Filiado em 1909, sua jornada artística recomeçava somente aos 39 anos quando decide mudar para Paris em dezembro de 1911. Quando começou a viver em Paris, que seu trabalho impressionista começou a sofrer mutações marcando uma época focada e produtiva onde muitas das suas questões sobre filosofia, religião e cubismo foram pintadas. Hasteada na parede do ateliê de uma amigo, a foto de H. P. Blavatsky ostentava um dos pilares que mantiveram Mondrian focado pelos próximos dois anos em seu trabalho. Falando pouco francês e munido de poucos conhecidos na cidade, o pintor estava recluso às influências visuais da capital mais brilhante da época. Sua reclusão foi marcante para seu trabalho enquanto Paris se encontrava inebriada pelos movimentos da moda e incapaz de enxergar o que o futuro necessitava.

“Mondrian lived and worked in Paris for extended periods of his development, first in the years between 1912 and 1914 and then again from 1919 to 1938.”

“Parisian modernism was, by and large, far too attached to the things of this world to forgo their pictorial representation as a permanent imperative.”

1917, Piet Mondrian, Composition with lines

1917, Piet Mondrian, Composition with lines

Tão importante quando o exílio em Paris foi o exílio de Paris. Voltando abruptamente para os Países Baixos pela saúde de seu pai, Mondrian ficou preso fora da França devido à eclosão da Primeira Guerra Mundial. Desafortunado por seus trabalhos ficarem todos para trás, traçou uma mudança em sua produção focando os 3 anos subsequentes ao desenvolvimento intelectual e produção literária. Foi neste momento que as ideias sobre o que era o estilo começaram a assentar.

“Art and Reality. Art is higher than reality, and has no direct relation to reality. Between the physical sphere and the ethereal sphere there is a frontier where our senses stop functioning. Nevertheless, the ether penetrates the physical sphere and acts upon it. Thus the spiritual penetrates the real. But for our senses these are two different things—the spiritual and the material. To approach the spiritual in art, one will make as little use as possible of reality, because reality is opposed to the spiritual. Thus the use of elementary forms is logically accounted for. These forms being abstract, we find ourselves in the presence of an abstract art.”, Pieter C. Mondriaan.

1935-42, Piet Mondrian, Rhythms with black lines

1935-42, Piet Mondrian, Rhythms with black lines

Essas mudanças foram fortemente influenciadas pelo encontro com diversos artistas que trabalhavam espalhados pela Europa que regressavam aos Países Baixos devido ao seu caráter neutro em relação à guerra. O desenvolvimento do estilo foi catalizado pela necessidade intelectual, científica, artística e por desencontros políticos que tiraram de foco o polo avant-garde, Paris.

Foi por ter voltado aos Países Baixos que Mondriaan se separou de seu trabalho e se encontrou acompanhado de outras mentes onde cresciam os mesmo questionamentos artísticos. Devido ao posicionamento neutro em relação à guerra dos Países Baixos vários artistas nativos à essa região regressavam com sua experiências únicas onde ideias abstratos se alinhavam à vontade de criar um mundo sem guerra, necessidade de reestruturar ideologias e sociedade. Foram nesses anos de guerra que Mondriaan conheceu Theo van Doesburg, Bart van der Leck, J. J. P. Oud, Robert van’t Hoff, Vilmos Huszar, Gerrit Rietveld e Georges Vantongerloo, formando em 1917 De Stijl.

1921, Piet Mondrian, Tableau I

1921, Piet Mondrian, Tableau I

Ilhados perante a uma guerra mundial num território neutro os pensadores presentes naquele cenário questionavam o que era arte e em que objeto era se centrava. A dúvida sobre o que a arte complementava na sociedade alimentou a crítica posicionando as mentes contra a prepotência dos movimentos artísticos passados que criaram o mundo de caos e guerra. O Neo-plasticismo surgiu da necessidade conceitual de um novo mundo influenciado pelo que havia de mais inovador: a psicanálise, o sincretismo e o comunismo.

Alinhavam-se então ideias igualitários, utópicas, racionais e industriais à produção artística eliminando os erros da natureza e colocando o que há de mais humano nas composições. Por isso é possível entender que o Neo-plasticismo é hiperônimo do De Stijl pois seus ideias não se limitam ao movimento artístico e permeiam o modernismo desenvolvido daí em frente. Artistas como Kazimir Malevich e Vassily Kandinsky, mesmo não fazendo parte do De Stijl, tiveram produções artísticas que se aproximavam graficamente das mesmas dúvidas estético-filosóficas das apresentadas.

1944, Piet Mondriaan, Victory Boogie Woogie

1944, Piet Mondriaan, Victory Boogie Woogie

A destilação das cores em supersaturação das primárias, as horizontais e verticais e a falta de simetria clássica representavam o imaginário humano. As cores primárias eram a abstração de como conhecer as cores, as linhas simplificavam os objetos para a decomposição e a harmonia assimétrica criticava a necessidade doentio de harmonia natural. Todos esses elementos bebiam da fonte do Cubismo e Impressionismo reconciliados com a liberdade ideológica provida pelo sincretismo.

Os grandes diferenciais que marcaram o De Stijl foi o objeto de sua representação. A composição e seu criador se tornaram o objeto da composição, a natureza já estava fora do escopo do que era representado. Portanto a arte abstrata se encontrou não mais como seguimento da arte clássica mas como seu próprio campo de estudo.

“Mondrian was the first to realize, in 1913, by a consistent elaboration of Cubism, this new plasticism as a painting.”, Theo van Doesburg.

Como visto no excerto do diário de Mondrian, sua identificação com a realidade sai do material para o espiritual. Essa ressignificância não alterou a direção artística abstrata mas alinhou o léxico dos escritos com o objeto do trabalho. E, como dito pelo fundador do estilo, Theo van Doesburg, este foi o primeiro artista a realizar o potencial cubista no que seria o novo plasticismo.


Para informação mais detalhada sobre, acesso à leilões de obras, artigos e artistas associados ao trabalho de Piet Mondrian acesse sua página em Artsy.net.

Referências