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O Sol inevitável

Foto do pôr do sol por Sebastián Gandra.

Foto por Sebastián Gandra.

No fim da tarde é fácil entender por que o pôr-do-sol é tão evitável. Os carros soando e as pessoas acostumadas a ver suas vidas passando. Objetivos tão claros e anseios de guerra e paz. Aquele astro no céu fica difícil de enxergar quando o Sol foi deslocado para o fundo do ego.

Pouco após o meio do ano num dia 14 e 15 é o aniversário de minha irmã e o meu. Nós temos o costume de nos unir para celebrar juntos e encontrar amigos e família. Esse ano essa comemoração ficou para mais cedo pois estávamos separados em cidades distantes. O dia, no entanto, continuava no mesmo calendário, na mesma hora, no mesmo segundo e não foi informado ao Sol sobre o seu reagendamento.

Depois do domingo 14 e já na segunda 15, iniciando a terceira semana daquele mês, foi reservado para que as pessoas estivessem seguras no conforto de seus amores verdadeiros, longe da dor, da solidão e da ambição. O que o Sol havia preparado não era para qualquer um e poderia esmagar um coração fraco.

Eu voltava do trabalho, checando meus eletrônicos e planejava o próximo passo das minhas ações equivocadas agridoces. Tinha me esquecido daquele compromisso como todos os outros que estavam no trânsito, no metrô, nas esquinas e atendendo telefones. Depois de pouco menos de 12 horas ficou claro que o Sol era o único infeliz que havia feito algo.

Olhando para os celulares, contando os passos do pé e do coração eu corria desesperado como meu pai, minha mãe e minha irmã. Meus amigos, espalhados por todos os cantos, correram por suas vidas, suas famílias e tudo o que tinham dado nomes e por todas as cores que foram ensinados a gostar. Ninguém lembrou de olhar o mais essencial e o inescapável da vida, a vida.

O horizonte que de branco e azul, estupefato enrijeceu o amarelo como quem deseja chamas na Terra. O efeito foi temporário mas o desconforto era verdadeiro. Todos correndo para as sombras e fugindo para seus abrigos desceram escadarias infinitas para o subsolo. Era fácil entender um Sol revoltado.

Depois o céu ficou tênue e escolheu tons mais neutros, ficou laranja, ficou sépia. Foi como quem chama todos para saírem e dá seu aval que depois disso nada mais. Não haveria mais raiva, mais ódio, mais vingança. Era só uma fase para que todos dessem uma parada e bebessem um copo d’água; talvez até lembrassem de respirar e aproveitar, afinal de contas aquilo era um dia!

Saindo do amarelo sangrou um vermelho rasgando o que restava de azul no céu. Como batidas de um sino, dos corações nasceu um esmeralda pulsando na linha do horizonte. Era inevitável olhar para o céu naquela hora. Infelizmente o dia tinha que parar e ninguém teria escolha. O céu pedia “altas!”. Com as baterias já em 5%, os desengonçados, por uma vez esqueceram seus carregadores externos e foram fisgados pelo interesse genético de olhar o pôr-do-sol.

Eu lembrei da minha cadela na infância, da minha vida, das pessoas, do dia-a-dia. Amarguei as brigas e as dores e senti o peso das escolhas no que eu sentia e no que eu era. Como prometido, para olhar aquele Sol era necessário ter segurado na mão amada, sentido a certeza de um novo dia, tido a oportunidade de contemplar a riqueza dos amigos e família.

A data foi remarcada e o Sol não sabia. Foi assim que milhares de pessoas sentiram seu peito apertar e seus hábitos tatuados na expressão do rosto retorcerem em constatações e reflexões. Foi difícil aguentar aquele minuto onde o sol brilhava de uma cor em cada raio e polarizava o que cada um sentia.

E o acordar não foi menos chocante do que ser fisgado por aquele espetáculo público. Ao se pôr foi um suspiro coletivo. Como se toda aquela dor fosse um soluço e a ferida fosse cauterizada por um respiro livre. Sobrou uma cicatriz a ser esquecida.

A noite.

Para Mariana.